Sítio Santa Maria

Março 25, 2009

O maió homi do mundo

Arquivado em: arte, contos, poemas, sítios — luvizan @ 12:04 pm

Hoje aqui, oiando pra vancê meu pai,
To me alembrando quanto tempo faz
Que pela primeira vez na vida, eu chorei.
Não foi quando nasci pru que sei que vim berrando…
E disso ninguém se alembra, não.
Foi quando um dia eu caí…levei um trupicão,
Eu era criança. Me esfolei, a perna me doeu,
Quis chora, oiei pra vancê, que esperança.
Vancê não correu prá do chão me alevanta.

Só me oiô e me falô:
—Que isso, rapaz ? Alevanta já daí…
HOMI NÃO CHORA.

Aquilo que vancê falô naquela hora,
Calou bem fundo,
pru que vancê era o maió homi do mundo.
Não sabia menti nem pra mim nem pra ninguém…
O tempo foi passando…cresci também…
Mas sempre me alembrando..

HOMI NÃO CHORA. Foi o que vancê falô.

O mundo foi me dando os solavanco,
Ia sentindo das pobreza os tranco…
Vendo as tristezas vorteá nossa famía,
E as vêiz as revorta que eu sentia era tanta,
Que me vinha um nó cego na garganta,
Uma vontade de gritá…berrá, chorá…mas quá..
Tuas palavra, pai, não me saía dos ouvido..
HOMI NÃO CHORA

Intão, mesmo sentido, eu tudo engolia
E segurava as lágrima que doía…
E elas não caía, nem com tamanho de
Quarqué uma dô…

Veio a guerra de 40…e eu tava lá…um homi feito,
Pronto pra defendê o Brasí.
Vancê e a mãe foram me acompanhá pra despedi.
A mãe, coitada, quando me abraçô, chorô de saluçá.
Mas, nóis dois, não.
Nóis só se oiêmo, se abracêmo e despedimo
Como dois HOMI. Sem chorá nem um pingo.
Ah, me alembro bem… era um dia de domingo.

Também quem é que pode esquecê daquele tempo ingrato ?
Fui pra guerra, briguei, berrei feito um cachorro do mato,
A guerra é coisa que martrata..
Fiquei ferido…\com sodade de vancês…escrevi carta
Sonhei, quase me desesperei, mas chorá memo que era bão
Nunca chorei…
Pruque eu sempre me alembrava daquilo que meu pai falô:
—HOMI NÃO CHORA.

Agora, vendo vancê aí…desse jeito…quieto..sem fala,
Inté com a barbinha rala, pru que não teve tempo de fazê..
Todo mundo im vorta, oiando e chorando pru vancê…
Eu quero me alembrá…quero segurá…quero maginá
Que nóis dois sempre cumbinemo de HOMI NÃO CHORÁ…quero maginá que um dia vancê vorta pra nossa casa
Pobre..e nóis vai podê de novo se vê ansim, pra conversá
Intão vem vindo um desespero, que vai tomando conta..
A dô de vê vancê ansim é tanta…é tanta, pai,
Que me vorta aquele nó cego na garganta e uma lágrima
Teimosa quase cai..
Óio de novo prôs seus cabelo branco…e arguém me diz
Agora pra oiá pela úrtima vez..que tá na hora de vancê
Embarcá.

Passo a minha mão na sua testa que já não tem mais pensamento….e a dô que to sentindo aqui dentro,
Vai omentando…omentando, quase arrebentando
Os peito…e eu não vejo outro jeito senão me descurpá.
O sinhô pediu tanto pra móde eu não chorá..HOMI NÃO CHORA…o sinhô cansô de me falá…mas, pai,
Vendo o sinhô ansim indo simbora…me descurpe, mas,
Tenho que chorá.

Título: Homem não chora
Autor: Rolando Boldrim

Agosto 29, 2008

Dois Irmãos

Arquivado em: contos, futebol — luvizan @ 10:43 pm

Olha um conto futebolístico que escrevi um tempo atrás…

No diretório acadêmico ele folheava o suplemento esportivo do jornal como de costume. Um informe lhe chamou a atenção: “Fundação Gol de Letra convida para jogo beneficente: Amigos do Raí x Amigos do Sócrates”. Como se tratava de um jogo cuja renda seria revertida, os convidados teriam que desembolsar R$ 7.000,00 para por os pés no gramado do Morumbi.

Sabendo da condição filantrópica da faculdade, Tuca, como presidente do diretório acadêmico, redigiu um ofício ao reitor solicitando fundos para a participação no evento. Não tinha nada a perder.

No mesmo dia o diretório acadêmico recebe uma ligação.
-Por gentileza, gostaria de falar com o presidente.
-Quem fala?
-O reitor.
-Nossa… – Tuca! O reitor!

Conversaram um pouco e o reitor concordou com o pedido de Tuca, porém exigiu publicidade para a instituição.

Até que Tuca batia uma bolinha.

Quanto à publicidade, ele sabia, tinha certeza de que o dinheiro investido pela faculdade, se tornaria uma ninharia em relação à publicidade a ser alcançada. Não sabia como, apenas sabia.

E Tuca foi para o Morumbi com seu irmão e alguns amigos. Na efervescência dos vestiários começava aquela tietagem, fotos de todos, autógrafos de quem não se conhecia, aperto de mãos, e aquelas frases de quem não tem nada a dizer, tais como: “Aprecio muito se futebol”, e “ Hoje esta quente hein?”

Já chegou ao estádio conformado com a condição que jogaria no combinado alvi-negro.

Como um bom são-paulino, não agüentava mais os insultos ao time do Morumbi nos comentários dos craques “Amigos do Sócrates”, particularmente oriundos de Neto e Casagrande.

Tuca revidaria.

Quase tudo pronto, quando chega alguém…

-Magrão… – Raí entra no vestiário corintiano e entrega um par de chuteiras ao irmão Sócrates -, as suas chuteiras!
Sócrates as calça e reclama:

-Não serviu…- eram novas e estavam apertadas – Alguém tem um par para me emprestar?

-Eu tenho, mas não sei se te servem… – respondeu Tuca tirando da mochila um par reserva que trouxera consigo.

-Deixe-me prová-las.- o craque ficou em pé, flexionou o joelho direito e deu aqueles chutinhos no chão com o bico da chuteira.

– Perfeito. Fique com essas novas para você.

-Obrigado. – agradeceu modestamente, baixando a cabeça em sinal de respeito.

E a bola rolou. Tuca começa no banco, era muita gente para jogar. Entraria em campo na etapa complementar.

Foi um típico jogo beneficente. Cheio de gols e belas jogadas. Tudo na maior normalidade.
Até os quarenta do segundo.

O placar marcava 4 x 4 , e apesar da brincadeira, os dois brasões queriam a vitória.

Eis que Tuca, apagado até então, recebe de ninguém uma bola espirrada e parte rumo à meta de Zeti, o consagrado arqueiro tricolor.

Faz que vai para a direita. Zeti o acompanha. Pára. Zeti cai. Chuta na esquerda. A bola rola. Gol.

A nação corintiana se inflama. A independente se cala. Tuca corre para festejar com a torcida e ergue os braços. Eis que tira a camisa do Corinthians, faz ver a do São Paulo que estava por baixo, e se vira para a torcida tricolor. A nação corintiana se cala.

A independente se inflama. E no olhar dos jogadores corintianos, aquela expressão de “não acredito”, contrastava com o sorriso meio contido e gargalhadas dos são-paulinos.

Depois do lance, não recebeu mais a bola. Viola nem o olhava. Fim de jogo, 5 x 4 para o Corinthians. Ou para o São Paulo?

E na saída, um lanche de pernil.

Mandei para um concurso de contos do Estadão…não deu em nada.

Dois Irmãos

Arquivado em: contos, futebol — luvizan @ 10:43 pm

Olha um conto futebolístico que escrevi um tempo atrás…

No diretório acadêmico ele folheava o suplemento esportivo do jornal como de costume. Um informe lhe chamou a atenção: “Fundação Gol de Letra convida para jogo beneficente: Amigos do Raí x Amigos do Sócrates”. Como se tratava de um jogo cuja renda seria revertida, os convidados teriam que desembolsar R$ 7.000,00 para por os pés no gramado do Morumbi.

Sabendo da condição filantrópica da faculdade, Tuca, como presidente do diretório acadêmico, redigiu um ofício ao reitor solicitando fundos para a participação no evento. Não tinha nada a perder.

No mesmo dia o diretório acadêmico recebe uma ligação.
-Por gentileza, gostaria de falar com o presidente.
-Quem fala?
-O reitor.
-Nossa… – Tuca! O reitor!

Conversaram um pouco e o reitor concordou com o pedido de Tuca, porém exigiu publicidade para a instituição.

Até que Tuca batia uma bolinha.

Quanto à publicidade, ele sabia, tinha certeza de que o dinheiro investido pela faculdade, se tornaria uma ninharia em relação à publicidade a ser alcançada. Não sabia como, apenas sabia.

E Tuca foi para o Morumbi com seu irmão e alguns amigos. Na efervescência dos vestiários começava aquela tietagem, fotos de todos, autógrafos de quem não se conhecia, aperto de mãos, e aquelas frases de quem não tem nada a dizer, tais como: “Aprecio muito se futebol”, e “ Hoje esta quente hein?”

Já chegou ao estádio conformado com a condição que jogaria no combinado alvi-negro.

Como um bom são-paulino, não agüentava mais os insultos ao time do Morumbi nos comentários dos craques “Amigos do Sócrates”, particularmente oriundos de Neto e Casagrande.

Tuca revidaria.

Quase tudo pronto, quando chega alguém…

-Magrão… – Raí entra no vestiário corintiano e entrega um par de chuteiras ao irmão Sócrates -, as suas chuteiras!
Sócrates as calça e reclama:

-Não serviu…- eram novas e estavam apertadas – Alguém tem um par para me emprestar?

-Eu tenho, mas não sei se te servem… – respondeu Tuca tirando da mochila um par reserva que trouxera consigo.

-Deixe-me prová-las.- o craque ficou em pé, flexionou o joelho direito e deu aqueles chutinhos no chão com o bico da chuteira.

– Perfeito. Fique com essas novas para você.

-Obrigado. – agradeceu modestamente, baixando a cabeça em sinal de respeito.

E a bola rolou. Tuca começa no banco, era muita gente para jogar. Entraria em campo na etapa complementar.

Foi um típico jogo beneficente. Cheio de gols e belas jogadas. Tudo na maior normalidade.
Até os quarenta do segundo.

O placar marcava 4 x 4 , e apesar da brincadeira, os dois brasões queriam a vitória.

Eis que Tuca, apagado até então, recebe de ninguém uma bola espirrada e parte rumo à meta de Zeti, o consagrado arqueiro tricolor.

Faz que vai para a direita. Zeti o acompanha. Pára. Zeti cai. Chuta na esquerda. A bola rola. Gol.

A nação corintiana se inflama. A independente se cala. Tuca corre para festejar com a torcida e ergue os braços. Eis que tira a camisa do Corinthians, faz ver a do São Paulo que estava por baixo, e se vira para a torcida tricolor. A nação corintiana se cala.

A independente se inflama. E no olhar dos jogadores corintianos, aquela expressão de “não acredito”, contrastava com o sorriso meio contido e gargalhadas dos são-paulinos.

Depois do lance, não recebeu mais a bola. Viola nem o olhava. Fim de jogo, 5 x 4 para o Corinthians. Ou para o São Paulo?

E na saída, um lanche de pernil.

Mandei para um concurso de contos do Estadão…não deu em nada.

Agosto 8, 2008

Genial

Arquivado em: contos — luvizan @ 6:46 pm


Marcel, você que é engengheiro, o quê me diz desse “causo”?


REVOLTADO OU CRIATIVO?

“Há algum tempo recebi um convite de um colega professor para servir de árbitro na revisão de uma prova de física que recebera nota zero . O aluno dizia merecer nota máxima. O professor e aluno concordaram em submeter o problema a um juiz imparcial, e eu fui o escolhido .

Chegando à sala de meu colega, li a questão da prova: Mostre como se pode determinar a altura de um edifício bem alto com o auxílio de um barômetro .

A reposta do estudante foi a seguinte : “Leve o barômetro ao alto do edifício e amarre uma corda nele ; baixe o barômetro até a calçada e em seguida levante, medindo o comprimento da corda; esse comprimento será igual à altura do edifício”.

Sem dúvida a resposta satisfazia o enunciado, e por instantes vacilei quanto ao veredicto .

Recompondo-me rapidamente , disse ao estudante que ele tinha respondido à questão, mas sua resposta não comprovava conhecimentos de física, que era o objeto da prova. Sugeri então que ele fizesse outra tentativa de responder a questão . Meu colega concordou prontamente e, para minha surpresa, o aluno também.

Segundo o acordo, ele teria seis minutos para responder a questão, demonstrando algum conhecimento de física .

Passados cinco minutos, ele não havia escrito nada, apenas olhava pensativamente para o teto da sala .

Perguntei-lhe então se desejava desistir , pois eu tinha um compromisso logo em seguida. Mas o estudante anunciou que não havia desistido , e estava apenas escolhendo uma entre as várias respostas que concebera .

De fato, um minuto depois ele me entregou esta resposta: ‘Vá ao alto do edifício , incline-se numa ponta do telhado e solte o barômetro, medindo o tempo T de queda, desde a largada até o toque com o solo . Depois, empregando a fórmula h=(1/2)gt2 , calcule a altura do edifício‘ .

Nesse momento , sugeri ao meu colega que entregasse os pontos e , embora contrafeito , ele deu uma nota quase máxima ao aluno.

Quando ia saindo da sala , lembrei-me de que o estudante havia dito ter outras respostas para o problema. Não resisti a curiosidade e perguntei-lhe quais eram essas respostas.

Ele disse : Ah! sim , há muitas maneiras de achar a altura de um edifício com a ajuda de um barômetro . Por exemplo: num belo dia de sol pode-se medir a altura do barômetro e o comprimento de sua sombra projetada no solo, bem como a do edifício . Depois , usando-se uma simples regra-de-três , determina-se a altura do edifício . Um outro método básico de medida, aliás bastante simples e direto , é subir as escadas do edifício fazendo marcas na parede, espaçadas da altura do barômetro. Contando o número de marcas, tem-se a altura do edifício em unidades barométricas.

Um método mais complexo seria amarrar o barômetro na ponta de uma corda e balança-lo como um pêndulo , o que permite a determinação da aceleração da gravidade (g). Repetindo a operação ao nível da rua e no topo do edifício, obtêm-se duas acelerações diferentes , e a altura do edifício pode ser calculada com base nessa diferença. Se não for cobrada uma solução física para o problema, existem muitas outras respostas . A minha preferida é bater à porta do zelador do edifício e dizer: ‘Caro zelador , se o senhor me disser a altura desse edifício , eu lhe darei esse barômetro.‘

A essa altura, perguntei ao estudante se ele não sabia qual era a resposta ‘esperada ‘ para o problema Ele admitiu que sabia , mas estava farto das tentativas do colégio e dos professores de dizer como ele deveria pensar.”


Tirei esse texto do Blog + corrida, do Rodolfo Lucena.
Créditos para o professor Valdemar Setzer.

Julho 15, 2008

Santo Gral

Arquivado em: contos, estilo de vida — luvizan @ 10:23 pm


Pessoas,
As vezes me sinto o pai do Indiana Jones naquele filme em que passa a vida inteira dedicada a busca do Santo Gral.
Escrevo, escrevo, e minha razão diz que não chegarei a lugar nenhum. Mas um outro lado do cérebro diz que esse trabalho é importante.
Ainda não sei em que sentido. Quem sabe, saberei disso em alguns anos. Ou quando estiver morto.
Quase chamo isso de “herança internética”.
Quase porque não confio na rede, confio na pena.
Meu amigo Tim me disse para imprimir tudo. Acho que seguirei seu conselho.
Mas olha só que complicado…Meus netinhos me achariam muito mais fácil no mundo virtual que num monte de folhas impressas, em baixo de um monte de folhas impressas. Tipo xerox de faculdade.


Exceções para os netos de Saramago, Jorge Amado e outros do naipe.
Falando nisso, saibam que o vovô escreve este texto de pantufas no pé às 20:50h do dia 15/7/2008. Lápis em punho, pão com mortadela saindo do forninho elétrico e Patrícia chamando para o jantar. Ah, e escutando Luiz Melodia na Eldorado FM.

Pô!
Tô deixando vários relatos que considero importantes mesmo tendo aceito a cláusula de que esse serviço pode sair do ar a qualquer momento.
Que me____, né?
Talvez fosse o maior presente para as próximas gerações.
Um presente que gostaria de ter recebido.

Blog no WordPress.com.