Olha um conto futebolístico que escrevi um tempo atrás…
No diretório acadêmico ele folheava o suplemento esportivo do jornal como de costume. Um informe lhe chamou a atenção: “Fundação Gol de Letra convida para jogo beneficente: Amigos do Raí x Amigos do Sócrates”. Como se tratava de um jogo cuja renda seria revertida, os convidados teriam que desembolsar R$ 7.000,00 para por os pés no gramado do Morumbi.
Sabendo da condição filantrópica da faculdade, Tuca, como presidente do diretório acadêmico, redigiu um ofício ao reitor solicitando fundos para a participação no evento. Não tinha nada a perder.
No mesmo dia o diretório acadêmico recebe uma ligação.
-Por gentileza, gostaria de falar com o presidente.
-Quem fala?
-O reitor.
-Nossa… – Tuca! O reitor!
Conversaram um pouco e o reitor concordou com o pedido de Tuca, porém exigiu publicidade para a instituição.
Até que Tuca batia uma bolinha.
Quanto à publicidade, ele sabia, tinha certeza de que o dinheiro investido pela faculdade, se tornaria uma ninharia em relação à publicidade a ser alcançada. Não sabia como, apenas sabia.
E Tuca foi para o Morumbi com seu irmão e alguns amigos. Na efervescência dos vestiários começava aquela tietagem, fotos de todos, autógrafos de quem não se conhecia, aperto de mãos, e aquelas frases de quem não tem nada a dizer, tais como: “Aprecio muito se futebol”, e “ Hoje esta quente hein?”
Já chegou ao estádio conformado com a condição que jogaria no combinado alvi-negro.
Como um bom são-paulino, não agüentava mais os insultos ao time do Morumbi nos comentários dos craques “Amigos do Sócrates”, particularmente oriundos de Neto e Casagrande.
Tuca revidaria.
Quase tudo pronto, quando chega alguém…
-Magrão… – Raí entra no vestiário corintiano e entrega um par de chuteiras ao irmão Sócrates -, as suas chuteiras!
Sócrates as calça e reclama:
-Não serviu…- eram novas e estavam apertadas – Alguém tem um par para me emprestar?
-Eu tenho, mas não sei se te servem… – respondeu Tuca tirando da mochila um par reserva que trouxera consigo.
-Deixe-me prová-las.- o craque ficou em pé, flexionou o joelho direito e deu aqueles chutinhos no chão com o bico da chuteira.
– Perfeito. Fique com essas novas para você.
-Obrigado. – agradeceu modestamente, baixando a cabeça em sinal de respeito.
E a bola rolou. Tuca começa no banco, era muita gente para jogar. Entraria em campo na etapa complementar.
Foi um típico jogo beneficente. Cheio de gols e belas jogadas. Tudo na maior normalidade.
Até os quarenta do segundo.
O placar marcava 4 x 4 , e apesar da brincadeira, os dois brasões queriam a vitória.
Eis que Tuca, apagado até então, recebe de ninguém uma bola espirrada e parte rumo à meta de Zeti, o consagrado arqueiro tricolor.
Faz que vai para a direita. Zeti o acompanha. Pára. Zeti cai. Chuta na esquerda. A bola rola. Gol.
A nação corintiana se inflama. A independente se cala. Tuca corre para festejar com a torcida e ergue os braços. Eis que tira a camisa do Corinthians, faz ver a do São Paulo que estava por baixo, e se vira para a torcida tricolor. A nação corintiana se cala.
A independente se inflama. E no olhar dos jogadores corintianos, aquela expressão de “não acredito”, contrastava com o sorriso meio contido e gargalhadas dos são-paulinos.
Depois do lance, não recebeu mais a bola. Viola nem o olhava. Fim de jogo, 5 x 4 para o Corinthians. Ou para o São Paulo?
E na saída, um lanche de pernil.
Mandei para um concurso de contos do Estadão…não deu em nada.
